hoje depois do almoço andei a viajar pelos anos quarenta, através das palavras dos meus pais. a propósito da fome, que a minha mãe diz que nunca passou, embora às vezes se comesse mais qualquer coisita – havia sempre um caldo de feijões, quanto mais não fosse, cozinhados na panela de barro que estava à lareira, mas era sempre a mesma coisa, e quando era sardinha, dividia-se por três. o que calhasse com a cabeça comia menos, mas estava mais tempo entretido, disse-me.
o meu pai falou de ir para a escola descalço ou com os chinelos da minha avó. e eu perguntei-lhe o que é que seria pior, se ir à escola ou calçar os chinelos da mãe. claro que ele respondeu que era ir à escola. a minha avó costumava ir atrás dele para se certificar que não ficava na mata a brincar. dizia ele que poucos eram os que tinham sapatos. naquela fotografia da escola, eu estou no meio e não se vê, mas quase de certeza que estou descalço. eu fui buscar a cópia que tenho dessa fotografia e, de facto, o meu pai não se vê, mas há uns dez meninos na primeira fila e só três é que estão calçados.

(quase tudo do que sou devo a eles. grande parte do que tenho, foi-me dado por eles. mas o maior legado é aquela capacidade para encararem a vida com coragem para lutarem pelo que gostam e serenidade para aceitarem o que a vida lhes dá, ainda que seja menos bom.)

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