gosto de chegar a casa já noite suficiente para que as ruas estejam quase desertas.
às vezes calha estacionar longe da porta do prédio. este outubro ainda está quente o suficiente para ter vontade de pousar os sacos, sentar-me no muro e sentir a temperatura do ar a acariciar-me os braços ainda despidos de mangas compridas. sinto alguma nostalgia de quando fumava e ali ficava, em noites de verão, a jogar fumo para o ar e a pensar na vida.
gosto de chegar a casa ainda noite insuficiente para fazer desaparecer os vestígios humanos das redondezas. luzes nas cozinhas. gente que apanha a roupa do estendal. uma vizinha que fuma à janela enquanto conversa ao telemóvel e posso ficar ali a ouvir o drama como se uma radionovela se tratasse. gente a passear os seus cães qualquer que seja a hora a que eu chegue.
nessas alturas em que chego ao meu bairro multicolor e somos poucos os que andam na rua sinto-me invadida de um prazer simples. sou feliz com coisas muito pequeninas. falha em mim a ambição de querer ter mais e mais como se tivesse a existência assegurada por algo divino. não sei como será o meu futuro mas nesses momentos em que saio do carro e o ar ainda está suficientemente cálido para me sentir acariciada sinto-me profundamente feliz. e sou suficientemente louca e irresponsável para acreditar que o bem que faço aos outros será dínamo que trará de volta à minha vida o que precisar enquanto viver.

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