You are currently browsing the category archive for the ‘passes em profundidade’ category.

às vezes só mesmo passando por uma fase de sofrimento, em que se está disposto a abdicar de tudo, para se ter consciência que na vida temos sempre muito mais a ganhar do que a perder.
e que a nossa vida só se constrói agindo. indo para a frente, tomando decisões, assumindo posições.
na verdade, diz e sempre me disse a experiência, na maioria das vezes as pessoas estão tão ocupadas com a suas próprias vidas, que nem têm tempo para nos foder o juízo. ou, melhor ainda, são tão incapazs de sózinhas arquitectarem planos para nos derrubar. já para não falar daquelas que nem se preocupam que a gente exista.
quem pensa o contrário vive uma vida amarrada a preconceitos, temores e angústias tão desnecessárias quanto perniciosas.

[daqui a 10 dias este blog fará (faria?) 11 anos. talvez este post lhe sacuda a poeira.]

Anúncios

acho que perdi o jeito e a mão para o blog. o facto de não conseguir escrever de forma espontânea, como habitualmente fazia, pelo facto de não ter acesso ao blog como tinha, talvez seja um dos motivos.
ou talvez não. perde-se a mão, acho. caminha-se noutros sentidos. abrem-se outras formas de expressão. a fotografia tem-me tornado menos expansiva. é muito difícil ser-ser criativa em mais do que uma área, a não ser que se seja genial. e eu, de facto, estou longe dessa genialidade.
as palavras são cada vez mais raras em mim, mesmo noutros sítios onde costumo comunicar.
jamais conseguiria encerrar o blog ou afirmar, com certeza, que não voltaria a escrever. não faz nada o meu género. mas achei que devia uma palavra aqueles, poucos mas bons, que ainda aqui passam à procura de qualquer coisa.
estou bem. estou muito bem. finalmente muito bem. talvez por isso, também, não haja muito para dizer aqui. a não ser…

… a não ser, em linguagem completamente metafórica, que este blog está de novo muito envolvido e comprometido com este aqui.

até um dia destes, que me apeteça. que poderá ser já a seguir, amanhã ou depois.

diz o senso comum que a mesma água não passa sob a mesma ponte duas vezes. ao mesmo tempo que, num sítio onde já passou água, a probabilidade de voltar a passar é uma coisa que deve ser sempre tida em conta. e as excepções servem para confirmar a regra.
posto isto, agradeço à vida toda a experiência e sabedoria que me trouxe nestes últimos anos, mas agora vou ali ser feliz que me apetece muito!

hoje, talvez só hoje, não quero saber da infelicidade do mundo.
muito bom dia! estou feliz. a minha vida voltou a encontrar-se comigo. e eu estou aqui muito contente a gozar este primeiro momento.
amanhã voltarei a pensar nos outros. talvez.

chego a casa perto da meia noite e meia. o ar ligeiramente fresco faz-me apressar o passo até à porta do prédio –
um gigante de sete andares, adormecido. nem um som se ouve, para além do elevador que chamo e as chaves que entram na fechadura.
em monsanto, por detrás das nuvens a lua estava cortada ao meio. nunca tinha reparado nela assim: maravilhosa metade de lua.
horas antes, numa qualquer rua da cidade, o meu professor de projecto elogiou-me o trabalho. eu, cheia de vontade de conseguir agradecer-lhe condignamente e exprimir o que me ia na alma, sorri. olhei-o nos olhos, com a maior felicidade que consegui transmitir, e agradeci. depois, fui à casa de banho e saltei de alegria – como quando estou no banco dos suplentes e a minha equipa faz golo e eu salto desvairada a festejar. sou tão ridícula!

[esta madrugada, às 3:39, terá a Lua completado o ciclo de quarto crescente. partiremos, então para a lua cheia.
tenho tantas saudades do peito pleno de felicidade…]

Lisboa - algures no tempo

Lisboa – algures no tempo

(*) interrogar-se

o que eu gostava, mesmo, é que a peça da minha vida voltasse a ser escrita por um dramaturgo.
em vez deste ranhoso copywriter de agência de quinta categoria…

… a dificuldade das pessoas em serem sinceras comigo.
eu sou tão mais condescendente na assumpção do erro…

Lisboa 01-01-2014 às 00:21

Lisboa
01-01-2014 às 00:21

… ou então andei demasiado distraída, anteriormente.

temo que esta tristeza jamais me abandone. é como uma camada fina de nevoeiro, tão fina que só se dá por ela quando pegamos numa câmara fotográfica e percebemos que, entre nós e a luz, existe um filtro.
não tenho certezas, mas ando a pensar que, talvez depois de um grande desgosto, haja qualquer coisa que fique a faltar. uma mola que se partiu e não deixa saltar a alegria espontânea. um cruise control qualquer da felicidade que teimosamente não passa dos 50. quem é que tem adrenalina a 50? ninguém!
tal como as baterias, que se não forem completamente descarregadas ficam com memória que vai ocupar espaço de carga, há um espaço algures no nosso coração que fica com a memória do desgosto. lixo entranhado que se agarra e não nos larga. quase imperceptível, mas quase a roçar a omnipresença.

(isso, ou a puta da menopausa que me está a baralhar as hormonas todas.)

Lisboa, Sete Rios. hoje às 14:19

caminho pela rua e procuro embrenhar-me no colectivo.
[ainda que quisesse, seria eu capaz de despir esta pele seca e voltar a ser um pouco mais humana? com todos os riscos que isso implicaria…]
eu queria, queria sair pela rua e sorrir pelas luzes que alumiam este natal falso. olhar para elas e ver a luz da redenção. já poucas coisas me espantam, me maravilham, me estarrecem. vivo cada vez mais num mundo subterrâneo de imagens escuras e sentimentos contidos.
[o meu desejo para este Natal? conseguir deitar a cabeça no colo da mãe e chorar.]
já não há natal.

e há um dia em que nos dão uma valente chapada que nos desperta e agita o cantinho onde estrategicamente nos colocamos para sofrermos o menos possível.

[quero fazer qualquer coisa com isto mas tenho receio. eu que nunca receei nada, deu-me para ser receosa com a menopausa… deve ser por isso…]

ao “à mulher de césar não basta ser séria, tem de parecer séria” eu atribuía-lhe uma nuance do “até pode não ser séria, tem é de parecer sempre séria”.

o desconhecimento tem um papel mais importante na nossa vida do que aquele que pensamos.
como diz a bela da Marisa Monte, quem sabe de tudo não fale, quem não sabe nada se cale.

dizem-me que eu não ouço as pessoas. que estou demasiado auto-centrada e que não me interesso por nada que não seja da minha vida. zango-me. eu odeio que me alertem para uma coisa que me incomoda. não faço perguntas. e isso dá a ideia de que não me interesso, dizem. outras vezes não me interesso mesmo. mas eu sempre fui boa a ouvir. será que me fechei assim tanto que já não estou nem aí para os outros? acho que não.
falta-me tempo. preciso de fazer tudo mais rápido, porque comecei muito tarde. é isso.

* heaven or hell, was the journey cold that gave you eyes of steel?

ando sempre à procura de roçar a perfeição. quando, finalmente, me libertar disso, talvez consiga ser mesmo feliz!

há muita gente que diz que não vai a funerais porque não gosta de funerais – como se isso fosse assim uma ideia peregrina!
não conheço ninguém que vá a funerais porque tenha prazer nisso – não digo que não haja pessoas assim, eu é que não as conheço, pronto.
ontem estava a pensar que, para quem morre, deve ser indiferente quem vai ou não – não consigo ter uma ideia concreta se a finitude do corpo tem uma relação directa sobre a finitude da consciência; isso da alma será o quê? claro que em circunstâncias muito especiais – a de ontem por exemplo, em que achei que a Paula estaria ali a ver-nos sorrir, quando o Paulo Flores começou a tocar na aparelhagem improvisada – dá um certo conforto pensar que seria bom que existisse qualquer coisa para além do mero corpo.
já fui a mais funerais pelas pessoas que ficam, do que propriamente pelas que partiram. felizmente para mim.
e, apesar do que mexe comigo, do desconforto que me causa, da angústia, faço-o sempre pensando que para as pessoas que ficam – família, amigos próximos  – deve dar um quentinho muito grande saber que, quem partiu, era uma pessoa querida. naquela altura deve ser mesmo o único consolo.

[até sempre, Paula. obrigada por tudo o que me ensinaste sobre as palavras. e a poesia.]

ando a adiar decisões, deixando-me arrastar pelo sabor doce da imprevisibilidade e da inconsequência. na minha cabeça isso soa-me a irresponsabilidade.
talvez não seja disso alheia, a dor que trago cravada logo abaixo dos ombros e no início da parte de dentro da omoplata.

[tenho de ir conversar com a minha Rute, ai tenho, tenho!]

gosto de chegar a casa já noite suficiente para que as ruas estejam quase desertas.
às vezes calha estacionar longe da porta do prédio. este outubro ainda está quente o suficiente para ter vontade de pousar os sacos, sentar-me no muro e sentir a temperatura do ar a acariciar-me os braços ainda despidos de mangas compridas. sinto alguma nostalgia de quando fumava e ali ficava, em noites de verão, a jogar fumo para o ar e a pensar na vida.
gosto de chegar a casa ainda noite insuficiente para fazer desaparecer os vestígios humanos das redondezas. luzes nas cozinhas. gente que apanha a roupa do estendal. uma vizinha que fuma à janela enquanto conversa ao telemóvel e posso ficar ali a ouvir o drama como se uma radionovela se tratasse. gente a passear os seus cães qualquer que seja a hora a que eu chegue.
nessas alturas em que chego ao meu bairro multicolor e somos poucos os que andam na rua sinto-me invadida de um prazer simples. sou feliz com coisas muito pequeninas. falha em mim a ambição de querer ter mais e mais como se tivesse a existência assegurada por algo divino. não sei como será o meu futuro mas nesses momentos em que saio do carro e o ar ainda está suficientemente cálido para me sentir acariciada sinto-me profundamente feliz. e sou suficientemente louca e irresponsável para acreditar que o bem que faço aos outros será dínamo que trará de volta à minha vida o que precisar enquanto viver.

©2013 Anabela Mendes

© Anabela Mendes

fotografar, às vezes, também!

… do que já conheço. e de quem já conheço.

afasto-me
calmamente
quase sem dar conta
do que era
e
isso
assusta-me.
por vezes.

pouco, muito pouco.
malditas hormonas!

se por um lado tenho imensas saudades de estar apaixonada, por outro sabe bem este ‘espartilho’ de segurança que é o não arriscar um milímetro.
[tantos anos de terapia para escrever tamanha alarvidade deveria dar direito a uma multa!]

tenho muito pouco que seja só meu – a minha bicicleta, talvez – e gosto de dar e partilhar. faço-o com a naturalidade com que isso me foi dado pelos meus pais. portanto, quando perco alguém, retenho as coisas boas e aceito que talvez não fosse mesmo para ser. e não agrido. não que seja alguma santinha, mas no que toca aos sentimentos acho mesmo que devemos aceitar o fluir das coisas. e agredir alguém com quem já se teve uma relação é uma coisa muito feia. principalmente quando se está na posição de perdedor.

… e ainda não consegui deixar de ser comedida na alegria.
que tristeza!

… mas nem quero debruçar-me muito sobre isso.

so far i’m happy who gives a damn?

comprei uma bicicleta há coisa de um mês. sou assim de resoluções imediatas. ou melhor, andava há anos a pensar que adorava voltar a ter uma bicicleta, mas encontrava sempre justificação para adiar o investimento. de repente, passou-me a ideia pela cabeça e em menos de uma semana concretizei-a.
também gostava muito de correr. mas correr implica, nesta altura da minha vida, um investimento em termos de treino que já não me apetece assumir. para conseguir correr tanto como ando de bicicleta, nunca mais era dia. portanto, ando toda contente com a minha bicicleta cor-de-rosa, parecendo uma barbie.
adoro andar à noite. já cheguei a sair de casa à meia noite para ir até carcavelos e voltar. para além do prazer das pedaladas, há todo um  momento de introspecção que sabe muitíssimo bem. o que vai desfilando diante dos meus olhos interpela-me e traz-me novas sensações.
ontem saí de casa às quatro e andei até alcântara. e voltei. hoje estou um bocado moída, mas valeu a pena.
[às vezes fico confusa com esta nova forma de fazer as coisas: sozinha. por inesperada. mas sabe-me muitíssimo bem.]

amanhã faço 50 anos. costumava dizer que aos cinquenta é que eu seria uma grande mulher. não sei o quão grande serei, mas sou toda uma nova mulher. pena este espaço ter sido quase abandonado, mas tudo tem o seu preço.

depois de uma conversa em que o meu caminho na fotografia se torna cada vez mais difícil, e angustiante, peguei num pedaço de uma folha de rascunho e pus-me a desenhar rectângulos, partindo do exterior para o interior. a lápis.

isto poderia muito bem ser um sonho. mas não foi. acho que há momentos em que nos alienamos por completo e nem nos damos conta do mundo em redor. e poderá, até, dar-se o caso de fazermos coisas que mais tarde não recordaremos.

[gostaria muito de estar de volta a esta casa.]

às vezes aquilo que parece ser um copo meio cheio, é tão somente um copo meio vazio. e furado, ainda por cima!

Imagem

* yes it is!

eu reflicto, mas não sei se gosto do reflexo.

[a racionalidade para que serve?]

eu ___________________________ mundo

IMG06130-20121121-0916B

photo

criem um espaço interior de liberdade.
quando se derem conta, ele já será exterior.

nos meus tempos da escola primária (1969/73), para além de servir para a professora escrever as coisas que tínhamos de copiar, ou exercícios que iamos resolver, a serventia mais absurda do velho quadro de giz era ter apontados os nomes de quem se portava mal, quando a professora se ausentava da sala. havia o velho hábito chibo de deixar um dos alunos a tomar conta dos outros, e a apontar o nome dos restantes. para se ter o nome no quadro bastava olhar para o lado. à frente do nome umas cruzes, tantas quantas as que fossemos apanhados em infracção. cada cruz traduzia-se numa reguada. eu, que nunca apanhei por ter más qualificações, era invariavelmente a primeira nestas circuntâncias da chibice.
ainda assim, guardo as melhores recordações daquele tempo. fui profundamente feliz. profundamente, mesmo!

… que fotografo cada vez pior. olha para as fotografias e vejo tudo desfocado, erros atrás de erros. e é aqui, neste ponto, em que apetece voltar à zona de conforto do automático, que a gente cresce e se faz gente e resiste. e continua a errar, aproveita uma em vinte, até que um dia estes momentos nos porão um sorriso nos lábios.
interessante esta sensação. de certo modo não é uma novidade. durante dois anos andei a trabalhar para que isso me acontecesse, mas num capítulo mais íntimo e privado da minha vida. e consegui. eu acho que consigo tudo.

… de que algumas coisas que perdemos não são recuperáveis. e nem sempre é uma sensação fácil de digerir. principalmente, porque a tendência para recuar até à zona de conforto é muito tentadora.

(depois, fico aqui a pensar no porquê e ainda por cima não sei a resposta.)

… das pessoas que passam a vida a impingir coisas aos outros. sejam os seus gostos, seja o que for.
há gente que não sabe partilhar de uma forma tranquila, subtil. tem de fazer tudo de forma estridente, como se, dessa forma, confirmassem que são pessoas interessantes e cheias de conteúdo. e assim toda a gente reparasse nelas.
ou seja, sentem-se importantes e interessantes pelas coisas que gostam e sabem.
quando, de facto, o que tem importância em nós é o que temos de mais reservado: o que somos. não o que sabemos. ou o que temos.

[e eu ando particularmente intolerante a tanto ruído, mas acho que deve ser uma questão hormonal.]

nada como comerçarmos a estudar, para nos darmos conta do quão ignorantes somos!

daqui



a partir de hoje e durante algumas semanas vou esquecer-me do que faço quando pego numa câmara fotográfica e vou aprender o bê a bá.
estou tão contente!

uma noite destas sonhei com aquelas moedinhas de plástico que existem nos hipermercados para os carros das compras.
este sonho não aparece do nada. eu tenho uma moeda dessas, azul, toda gasta e estragada, que perco e recupero com a mesma facilidade, que era do carrefour. eu sei que dizer isto não abona nada em meu favor. não faço ideia há quanto tempo não existe carrefour em lisboa, mas seguramente há mais de cinco anos. e eu continuo com aquela coisa quase a desfazer-se no porta-moedas, que me envergonha de cada vez que tiro as moedas para a mão para fazer a soma que desejo, e sim eu sei que isto terá um significado qualquer mas eu na verdade caguei bem para ele. vantagens de quem tem 49 anos e ao todo cinco anos de terapia. claro que há muita gente que cagaria igualmente nisso, mas porque de facto não tem capacidade para se questionar, que isso não está ao alcance de toda a gente. e como está bom de ver, eu hoje estou no alto da minha arrogância, qual bipolar em fase maníaca.
portanto, ter a moedinha de plástico toda gasta no porta-moedas há mais de cinco anos não constitui matéria para eu me debruçar em análises psicológicas.
agora, sonhar que ao abrir o porta-moedas me aparecem uma, duas, três, oito, dez, vinte, uma chusma de moedas de plástico do carrefour, azuis e vermelhas, é que seria coisa para eu tentar analisar. depois de muito meditar cheguei à conclusão que ando em fase de negação da minha costela sportinguista. daí só ter sonhado com moedas azuis e vermelhas. sou brilhante!

mélodie d’amour chantait le cœur d’Emmanuelle

ao contrário do que diz o senso comum de que as pessoas não se retractam ou não assumem os erros por orgulho, eu retracto-me e assumo a responsabilidade do erro exactamente pelo facto de ser profundamente orgulhosa.
a outra coisa frequentemente confundida com orgulho é estupidez. ou cobardia.

a dificuldade não está no facto de não gostarem de nós. muitas vezes gostam e até gostam muito.
a maneira como gostam é que nem sempre nos agrada.

terminar relações de amor é muito difícil. não sei que raio de poder tem a porra do coração, que coisa é esta que trazemos dentro do peito e que dói na alma, que bastas vezes se sobrepõe à razão.
mesmo quando a razão nos apresenta motivos claros e inequívocos de futuro desconforto, senão presente mesmo, ainda assim a bela bomba musculada de cor escarlate acelera o seu ritmo e impõe a sua vontade.
e é preciso uma grande destreza mental, uma grande força anímica para lhe dizer: meu amigo, acalma o teu ímpeto que isto já não está a ser bom para mim. e quando não está a ser bom, por muito que se goste, não vale a pena.
sem dramas, sem mágoas. tranquilamente.

hoje, quando toda a gente enfiada nos carros suportava o trânsito para ir trabalhar, passaram estes dois ao meu lado.
e fiquei a meditar em algumas coisas que me têm assolado o espírito nas últimas horas.
gente que não sabe o caminho, mas que julga que sabe. e nem tem mal nenhum, porque há alguma irreverência própria da idade.
para mim, na vida há três coisas que são insuportáveis: a má educação, a falta de respeito e a ingratidão. e estou certa de que não quero gente dessa perto de mim.

quando “des-envolvimento” (eu sei que não existe) é sinónimo de “desenvolvimento”.

ontem fui à missa. para ser sincera, não fui à missa. fui ter com alguém que estava na missa e assisti a grande parte.
ir à missa é uma coisa em que tenho pensado muito, ultimamente. gostava muito de sentir fé. observo deslumbrada o ritual que as pessoas cumprem. sei de cor quase todas as ‘falas’. não o digo alto, por respeito e pudor, mas mentalmente vou repetindo. toca-me particularmente a altura da comunhão. adorava fazer parte daquela fila de pessoas que espera pelo Corpo de Cristo, dizer amén ao comungar, vir até ao meu lugar e ajoelhar-me em recolhimento.
tenho uma curiosidade imensa sobre o que se sente, mas daquilo que tenho falado com pessoas amigas, é tudo muito pessoal e quase intransmissível por palavras – ao contrário do que fazem crer alguns que tentam impingir a religião.
falta-me sentir poucas coisas na vida. a fé é uma delas. e acho que não a sinto, porque me defendo profundamente.

“Senhor, eu não sou digna de que entreis na minha morada, mas dizei uma palavra e serei salva”.

e eu quero aproveitar isso até ao mais pequenino momento e pormenor.

esta semana tem passado lenta e tranquilamente. e nem o facto de já ter dedicado algum tempo às minhas lides desportivas, retirou um milímetro que fosse a esta sensação de paz.

… cada vez mais perto de mim!

e aqui cheia de inveja de um tipo que acabou de atravessar a piscina toda debaixo de água, com uma tranquilidade impressionante! e está de volta! (deve conseguir dar beijos que duram meia hora, certamente!)

um dia, talvez um dia eu aceite o que vier.
neste momento, sim, neste momento fico-me pelo mais simples:
quero que seja perfeito.
p.e.r.f.e.i.t.o.
é para isso que tenho trabalhado.
talvez um dia me canse e desista. e aceite o que vier.
talvez.
um dia.
amanhã?
quando é que é o amanhã de amanhã?

aprender a boiar – para me deixar ir…

na mãe que me conduziu.

[consigo ter a humildade suficiente para me rir dos meus actos falhados. e aceitá-los como tal porque, e quando, me fazem sentido.]

sinto-me a mudar de pele. tivera eu engenho para escrever o que vai dentro de mim, ou de o dizer, simplesmente, e seria muito mais fácil de me entenderem. mas não tenho. nem engenho, nem ousadia. procuro, neste momento, ficar sossegadinha a gozar a transformação que se vai apoderando de mim, levemente. já começou há tanto tempo, e foi tão lenta, que nem sempre me dou conta do que foi ficando diferente. da que saiu de mim e deixou entrar outra. e, de facto, embora para fora talvez não se note nada, aqui dentro há uma nova mulher – da qual eu estou a gostar imenso.

… serei menos boa a fazer determinadas coisas que agora faço muito bem.
e isso não será mau sinal.

– parece q tens sempre q dar o litro, né?
– sim
– se calhar é para perceberes q DÁS o litro!

[fiquei a pensar nisto, quica. obrigada pela achega.]

há coisas que uma vez coladas a nós, e nem sempre temos o discernimento necessário para não deixar que isso aconteça, é o cabo dos trabalhos para que elas desapareçam. são como a expectoração dos bebés que tem de ser aspirada. e, logo, logo, quando pensamos tudo tranquilo, manifesta-se.
vai-se desvanescendo, sol caindo a pique no horizonte do oceano, mas… desaparecer?
um
dia,
talvez um dia!

voltei a casa. senti a casa. fui às raízes. raízes do campo. de mãos calejadas pela enxada, de pele crestada, de fruta cheirosa, apanha da azeitona e panela de ferro na lareira.
no silêncio que atravessava o mato por cortar e no cheiro do abandono da casa, a minha história atravessou-me o pensamento. a adolescência, as tardes deitada na manta debaixo dos pinheiros a ouvir o “rock em stock”, quando o que me apetecia era andar a curtir os amigos e os pais me levavam para “a Rocha”. assim era chamado o lugar dos meus avós. o meu avô era o Mário da Rocha, embora fosse outro o seu apelido. e rocha ia-lhe tão bem. homem forte, íntegro e de convicções. que as passou todas à sua filha mais querida, a minha mãe.
e eu, ali, a tentar absorver alguma dessa firmeza, dar sentido ao que de rocha trago em mim. abrir o peito ao cheiro, inspirar fortemente e decidir assumir a renovação.

(sinto-me uma mulher diferente. como costumo dizer, aos 50 estará tudo consolidado. e reconciliado, também.)

sempre achei muita graça à forma idílica como algumas lésbicas in progress, à procura da primeira experiência, imaginavam as relações entre duas mulheres. mais do que uma me descreveu um cenário idealizado como um filme em que todos, neste caso todas, se amam, respeitam, toleram. eu sorria e dizia que as pessoas são todas iguais. a única coisa que é, certa e seguramente, diferente é a anatomia. o resto… enfim, dependia.
e, mais, até tenho para mim que as relações entre duas mulheres são a mais difícil combinação a dar certo. porque se duplica “debaixo do mesmo tecto” características que, numa relação homem/mulher se diluem na indiferença do homem e numa relação homem/homem não se põem (quer dizer, às vezes há alguns que são piores que elas). as mulheres são, regra geral, possessivas, manipuladoras, controladoras, ciumentas, muito ligadas a pequenos pormenores. não que isto apareça tudo ao mesmo tempo como uma bomba atómica, mas são características que grande parte tem e que quando batem do outro lado de forma igual, a coisa não corre bem.
isto tudo a propósito de uma notícia que a minha colega me leu do jornal e que está aqui uma parte. acresce-se que eu conheço uma das senhoras em questão, e devo dizer que, apesar de nunca ter tido um convívio de muito perto com ela, a ser verdade não me espanta minimamente o que li. mas choca-me!
choca-me sempre o poder e o abuso que se faz dele. choca-me a falta de respeito pelo indivíduo e sua privacidade. choca-me a violência, seja ela física, verbal ou pelo silêncio. e choca-me, sobretudo, as pessoas não conseguirem perceber que a única coisa que nos pertence é o nosso sentimento. o objecto do nosso afecto não é nosso. por muito que isso nos custe.
[todos os dias faço um esforço no sentido de não ser assim com ninguém de quem goste.]

apanho-me cheia de vontade de resgatar o sentir de família que nunca tive. família alargada. os primos. os filhos dos primos. por onde andei durante estes anos todos? desfilam imagens no meu pensamento e vinte e oito anos em que só me vejo a mim. já vivi muito para fora. tanta gente da qual já não me lembro. tanta falta de noção de sentir o pé assente no chão. da terra. aquela não é a minha terra, não a sinto como tal, mas é o que mais próximo tenho de terra. e a família mais chegada. fico cheia de vontade de ir e estar. porcaria do futebol, mais a minha ideia de regressar! desabafo assim, sem pensar. tudo tem sentido. sinto-me regressar ao chão. melhor, sinto que, finalmente, ao fim de quase cinquenta anos de existência, começo a saber o que é chão. e apetece-me regressar à família.

[Rute, eu aprendo devagar, mas vou conseguir. o único senão da lentidão, é que se torna tudo mais caro, mas antes para aí do que para o prozac.]

(e o que eu tenho trabalhado para isso, caramba!)

quando era mais nova, era bem mais destemida. respondia sempre com o que me estava na ponta da língua, sem fazer censura a nada.
depois, houve um tempo em que achei que deveria ser mais contida e mais assertiva. e comecei a ouvir mais e a dizer um pouco menos.
acho que as pessoas têm o direito de perceber, por si, que já me invadiram a fronteira da razoabilidade e, portanto, deverão ter alguma atenção ao que dizem e fazem, de forma a não me magoar . sou estúpida e acho que devo isso aos outros – o tempo para perceberem.
infelizmente, os últimos dias têm sido pródigos em palavras que, de todo, não me agradam e que sinto não merecer.

* às vezes fico tão estupefacta com o que me dizem, que nem sei o que hei-de responder. um dia aprenderei, estou certa.

 

em saber de que forma é que solidariedade e ingratidão podem conviver.

identificar o padrão: parece bem mais simples do que às vezes se torna.

[questionar as coisas, faz-nos a vida num virote!]

sabe-se isso, quando de manhã olhamos descomprometidamente para o lado e vemos um melro pousado numa árvore.
tranquilo.
imperturbável.
e uma sensação de tranquilidade e paz nos invade.

amanhã? será de facto um outro dia. e é, também,  de verdades lapalissianas que se faz a nossa vida.

muitas vezes quando se diz que não se consegue viver sem a outra pessoa (e nestes casos referimo-nos à pessoa com quem partilhamos vida e afecto), estamo-nos a referir à perda que vamos ter pela partilha de uma série de coisas e procedimentos, muito mais do que a perda do afecto.
viver em conjunto é o sítio onde o afecto é sentido de forma menos pura, porque a habituação de uma série de coisas feitas pelo outro, ou para o outro, torna mais difícil de se perceber o que nos faz estar com a pessoa: se o amor, se a necessidade de ter um conjunto de coisas que nos fazem sentir bem.
diga-se que qualquer uma delas é legítima. não convém, de todo, é confundir a razão por que se está. só para que, no caso de separação, seja mais fácil a resolução da perda.

daqui PsiMediar

estou com tantas saudades de te dar um abraço!

correio

meiavolta(at)gmail(dot)com

fotografias

todas as fotografias aqui reproduzidas são da autoria de ©Anabela Mendes, excepto se forem identificadas.

acordo ortográfico

não sei como se faz e nem quero saber!

Categorias

voltas passadas